Locação de bens imóveis na Reforma Tributária: o que muda para proprietários e locatários?
Entenda quem será contribuinte, como funcionarão NFS-e, CIB, apuração assistida, redutor social e a transição de 3,65% nas locações imobiliárias.

A Reforma Tributária incluiu a locação, a cessão onerosa e o arrendamento de bens imóveis na tributação da CBS e do IBS. A mudança alcança pessoas jurídicas e determinadas pessoas físicas e traz uma nova lógica de documentos fiscais, identificação dos imóveis pelo CIB, controle dos pagamentos e apuração assistida.
O ponto central é simples: imóvel, contrato, NFS-e, pagamento e tributação precisarão contar a mesma história. Quanto maior o número de imóveis e contratos, maior será a necessidade de organização cadastral e financeira.
Quem será contribuinte?
A regra muda conforme o locador seja pessoa jurídica ou pessoa física.
- Pessoa jurídica: em regra, a empresa que realiza locação estará sujeita às regras do IBS e da CBS conforme seu regime tributário e as regras específicas aplicáveis.
- Pessoa física: poderá ser enquadrada no regime regular quando ultrapassar os limites específicos previstos para operações com bens imóveis.
Pessoa física: os dois requisitos precisam ser atendidos
A pessoa física será considerada contribuinte no ano seguinte quando, no ano-calendário anterior, ocorrerem simultaneamente duas condições:
- a receita total com locação, cessão onerosa ou arrendamento exceder R$ 240.000,00, valor sujeito à atualização pelo IPCA; e
- as operações envolverem mais de três bens imóveis distintos.
Portanto, ter quatro imóveis, sozinho, não basta. Receber acima do limite com apenas três imóveis também não basta.
Exemplos
- Dois imóveis e R$ 300.000,00 de aluguel no ano: não será contribuinte, porque a receita supera o limite, mas não existem mais de três imóveis.
- Quatro imóveis e R$ 180.000,00 de aluguel no ano: não será contribuinte, porque há mais de três imóveis, mas a receita não supera o limite.
- Quatro imóveis e R$ 300.000,00 de aluguel no ano: será contribuinte, porque os dois requisitos são atendidos simultaneamente.
Enquadramento no próprio ano
A pessoa física também poderá ser enquadrada no próprio ano-calendário quando a receita com locação, cessão onerosa ou arrendamento exceder em mais de 20% o limite legal, desde que também sejam observados os mais de três imóveis distintos. Por isso, o valor recebido precisa ser acompanhado durante o próprio ano, e não apenas no encerramento.
Locação residencial de curta duração terá regra diferente
A locação, cessão onerosa ou arrendamento de imóvel residencial por período não superior a 90 dias ininterruptos, quando realizada por contribuinte sujeito ao regime regular, será tributada segundo as regras aplicáveis aos serviços de hotelaria.
Isso significa que a locação residencial de curta duração não segue automaticamente a mesma redução de 70% aplicável à locação imobiliária comum. O regime de hotelaria possui redução própria de 40% das alíquotas de IBS e CBS e regras específicas de créditos.
Esse ponto é especialmente relevante para imóveis residenciais explorados em estadias curtas ou plataformas de locação por temporada.
Quando ocorre o fato gerador?
Na locação, cessão onerosa ou arrendamento de bem imóvel, a LC nº 214/2025 determina que o fato gerador ocorre no momento do pagamento. O IBS e a CBS são devidos em cada pagamento.
Isso muda a forma de acompanhar o contrato. Não basta conhecer o valor mensal previsto: será necessário relacionar o valor efetivamente pago ao imóvel e ao documento fiscal correspondente.
A locação passará a exigir NFS-e
O contribuinte enquadrado deverá documentar a operação por meio da NFS-e, conforme os leiautes do padrão nacional aplicáveis às operações imobiliárias.
A obrigatoriedade da NFS-e para locações, cessões onerosas e arrendamentos de bens imóveis está prevista para 1º de dezembro de 2026, observadas as regras específicas aplicáveis aos contribuintes do Simples Nacional.
A Nota Técnica nº 009 da NFS-e criou grupos específicos para locação e para as unidades imobiliárias envolvidas. O leiaute permite informar até 99 unidades imobiliárias em uma mesma NFS-e e também até 99 transações de pagamento vinculadas, observadas as regras do documento.
A possibilidade de reunir informações não elimina a necessidade de identificar corretamente cada imóvel e cada pagamento. O sistema precisa saber a qual unidade imobiliária e a qual cobrança cada valor se refere.
O CIB aumentará a rastreabilidade dos imóveis
O Cadastro Imobiliário Brasileiro — CIB será a identificação cadastral nacional dos imóveis urbanos e rurais dentro do Sinter. O novo ambiente permite relacionar a unidade ao proprietário, ao contrato, aos documentos fiscais e às demais informações imobiliárias.
Por isso, endereço, inscrição municipal, matrícula quando aplicável e CIB precisam identificar corretamente o mesmo imóvel. O CIB não substitui o contrato, mas passa a funcionar como um importante elo cadastral entre as informações fiscais e imobiliárias.
Como a apuração assistida entra nessa operação?
A apuração assistida será formada a partir dos documentos fiscais, das informações sobre extinção dos débitos e de outras informações disponíveis às administrações tributárias.
Depois que a apuração assistida for apresentada, os ajustes do contribuinte deverão ser realizados nessa própria apuração. Se não houver manifestação dentro do prazo, o saldo apresentado será presumido correto e o crédito tributário será considerado constituído.
Por isso, o locador contribuinte precisará conciliar mensalmente:
- contratos de locação;
- imóveis e respectivos CIBs;
- NFS-e emitidas;
- valores cobrados;
- pagamentos recebidos;
- débitos de IBS e CBS;
- créditos, quando cabíveis;
- saldo apresentado na apuração assistida.
Um erro de imóvel, locatário ou valor deixa de ser apenas um problema administrativo: poderá afetar diretamente a apuração tributária.
Como será calculado o imposto?
A base de cálculo será, em regra, o valor da operação de locação, cessão onerosa ou arrendamento. Para essas operações, as alíquotas de IBS e CBS terão redução de 70%.
Exemplo apenas didático: se a soma futura das alíquotas padrão fosse de 28%, uma redução de 70% resultaria em alíquota de 8,4% para a locação. Esse percentual é apenas ilustrativo e não deve ser usado como alíquota definitiva em contratos.
Aluguel residencial terá redutor social mensal
Na locação residencial realizada por contribuinte sujeito ao regime regular, a legislação prevê redutor social de R$ 600,00 por mês, por imóvel, limitado ao valor da base de cálculo. O valor é atualizado mensalmente pelo IPCA.
Exemplo: em um aluguel residencial de R$ 3.000,00, a base inicial poderá ser reduzida em R$ 600,00, resultando em R$ 2.400,00 antes da aplicação das alíquotas.
Quando o imóvel tiver utilização residencial e não residencial, o redutor social será aplicado proporcionalmente à área residencial, conforme a legislação municipal aplicável.
Condomínio, IPTU e outros encargos
Determinados valores suportados pelo locatário não são computados na base de cálculo da locação, desde que atendidas as condições legais e exista prova inequívoca do pagamento:
- tributos e emolumentos incidentes sobre o imóvel, como o IPTU, quando efetivamente suportados pelo locatário;
- despesas de condomínio;
- foro anual e taxa de ocupação, quando aplicáveis.
Por isso, é recomendável que contrato, cobrança e documento fiscal deixem esses valores claramente identificados. Misturar aluguel, condomínio, IPTU e outros encargos em um único valor aumenta o risco de erro na base tributável.
Despesas próprias do proprietário, como corretagem, administração, manutenção e financiamento, não podem ser simplesmente abatidas do aluguel para reduzir a base de cálculo.
O que muda para o locatário?
Para o locatário pessoa física ou não contribuinte do regime regular, a principal mudança será a documentação da operação e a necessidade de conferir se aluguel e encargos estão corretamente discriminados.
Quando o locatário for contribuinte do regime regular e utilizar o imóvel em sua atividade econômica, a documentação fiscal correta poderá permitir a apropriação de créditos de IBS e CBS, observadas as regras gerais de não cumulatividade e a extinção do débito correspondente pelo fornecedor.
Isso torna a qualidade do documento fiscal relevante também para o locatário. Uma NFS-e incorreta pode afetar não apenas o débito do locador, mas também o crédito do adquirente.
Contratos antigos: existe opção de transição de 3,65%
Determinados contratos de locação, cessão onerosa ou arrendamento firmados por prazo determinado podem optar, de forma irretratável, por tributação de IBS e CBS equivalente a 3,65% da receita bruta recebida.
Contratos não residenciais
Para contratos com finalidade não residencial, a opção vale pelo prazo original do contrato, desde que o contrato tenha sido firmado até 16 de janeiro de 2025 e sejam cumpridos os requisitos de comprovação e registro ou disponibilização previstos na regulamentação.
Contratos residenciais
Para contratos residenciais, a regra transitória poderá valer pelo prazo original do contrato ou até 31 de dezembro de 2028, o que ocorrer primeiro, desde que o contrato tenha sido firmado até 16 de janeiro de 2025 e seja possível comprovar sua data nas formas previstas na regulamentação.
A opção pelo regime de 3,65% exige atenção porque:
- é irretratável durante o período aplicável;
Próximo passo
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- impede a utilização do redutor social;
- veda a apropriação de créditos pelo locador em relação às operações vinculadas ao imóvel submetido ao regime opcional;
- exige controles e escrituração segregados das operações submetidas à opção.
Por isso, a comparação não deve ser feita apenas entre 3,65% e a alíquota nominal do regime regular. É necessário comparar o efeito econômico completo de cada alternativa.
E os contratos que já estarão em andamento em 2027?
Muitos contratos já estarão em execução quando a CBS entrar em vigor em 2027. Esses contratos precisarão ser adaptados ao novo ambiente fiscal, ainda que tenham sido firmados anos antes.
Para cada contrato ativo, o locador deverá conhecer com clareza:
- o imóvel e seu CIB;
- o locatário;
- o valor contratual;
- a composição entre aluguel e encargos;
- os valores recebidos;
- o enquadramento no regime regular ou, se cabível, na transição de 3,65%;
- a forma de emissão da NFS-e;
- a vinculação dos pagamentos ao documento fiscal.
O fato de o contrato ser antigo não elimina a necessidade de documentar corretamente os pagamentos que ocorrerem sob a nova sistemática.
O que locadores e locatários deveriam fazer agora?
- Identificar se o locador estará sujeito ao regime regular como pessoa jurídica ou pessoa física.
- No caso de pessoa física, acompanhar número de imóveis e receita anual atualizada.
- Listar todos os imóveis locados e separar residenciais, comerciais e locações residenciais de curta duração.
- Validar CIB, endereço, inscrição municipal e demais dados cadastrais de cada imóvel.
- Revisar contratos para separar aluguel, condomínio, IPTU, taxas e demais encargos.
- Identificar contratos antigos que possam utilizar a opção transitória de 3,65%.
- Preparar o processo de emissão da NFS-e e a vinculação dos pagamentos.
- Criar conciliação entre contratos, NFS-e, recebimentos e apuração assistida.
- Avaliar o efeito dos créditos quando o locatário for contribuinte do regime regular.
- Simular o impacto da CBS e do IBS antes de renovar ou renegociar contratos.
Em resumo
A Reforma Tributária muda profundamente a gestão fiscal das locações imobiliárias. O imposto será devido em cada pagamento, a operação passará a ser documentada eletronicamente, o imóvel será identificado pelo CIB e as informações alimentarão a apuração assistida.
Para a locação comum, as alíquotas terão redução de 70%. A locação residencial terá redutor social mensal de R$ 600,00, enquanto determinadas locações residenciais de até 90 dias seguirão o regime de hotelaria.
O ponto central é que contrato, imóvel, NFS-e e pagamento precisarão estar perfeitamente alinhados. Organizar esses dados antes do início das obrigações reduzirá erros, retrabalho e riscos fiscais.
Sobre a Conttrolare
A Conttrolare atua há mais de 30 anos nas áreas de contabilidade, tributação e tecnologia, apoiando pequenas e médias empresas e seus proprietários na organização de processos, no cumprimento das obrigações fiscais e na tomada de decisões.
Diante da Reforma Tributária, a empresa auxilia seus clientes na avaliação dos impactos sobre contratos, preços, custos, créditos, fluxo de caixa e sistemas de gestão.
Referências normativas
- Emenda Constitucional nº 132/2023.
- Lei Complementar nº 214/2025, com as alterações posteriores, especialmente as regras do regime específico de bens imóveis.
- Lei Complementar nº 227/2026.
- Decreto nº 12.955/2026.
- Nota Técnica nº 009/2026 da NFS-e e anexos de leiaute do padrão nacional.
- Atos e cronogramas oficiais da RFB e do CGIBS relativos aos documentos fiscais eletrônicos.
Os limites monetários, as alíquotas e os procedimentos operacionais devem ser confirmados na legislação e nas normas vigentes na data de aplicação. Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a análise do caso concreto.



